28.5.11

Série "O" apresenta:

O Cunhado                                                          por Ana Cecília Romeu


   O cara é muito alto, 1,89m em pé, mas deitado parece que tem no mínimo 2,15m. Incrível como o sujeito cresce deitado no sofá da nossa sala. Esse é o meu cunhado. Ajeitadinho, loiro, olhos verdes, um pouco quieto, no peso certo e tem apenas duas paixões na vida: o computador e o nosso sofá. Até pensei em lançar novo conceito na arquitetura mundial, ao invés de sala de estar, por que não mudar a nomenclatura para sala de ficar? Cunhado sabe bem disso, se instala e vem para ficar. Anuncia fim de semana, mas emenda com o feriadão da outra semana.
   Se cuida e se alimenta muito bem. Café da manhã: dez pãezinhos franceses com muita manteiga, 800ml de leite, no mínimo, e ainda exige uma geleinha, quando não quer queijo e presunto. Ah! Ovos, somente cozidos, mas mal cozidos, molinhos, quase crus. É, cunhado dá prejuízo e sei bem disso, meu marido, irmão do talzinho, separa verba mensal para a hospedagem do moço, todo santo mês. Bem que poderia abater no imposto de renda. Sem falta, e o cara chega. Sempre com fome, simpático coitado, mas com todas exigências.
  Durmo pouco, sofro de insônia há muito tempo. Mas cunhado nem aí com isso, acorda sempre às 6h em ponto e já vai logo mexendo na geladeira, quando não liga o som e a TV. Mesmo em volume baixo, reduzo de cinco, para três horas, as poucas que tenho de sono.
   No último fim de semana, depois de repetir quatro vezes a lasanha, cunhado anuncia grande mudança em sua vida, que deveria ser comemorada por todos, inclusive por ele que, literalmente, comeria metade da torta de nozes.
  — Consegui emprego na área de informática em grande empresa — disse orgulhoso, engolindo a torta.
   — Parabéns! — fiquei contente.
   Cansado, com responsabilidade, talvez venha menos, ou traga um ranchinho, será?
  O tempo passando e cunhado engordando, criando barba, falando mal dos outros e juntando dinheiro. Apareceu menos vezes, mas as poucas, com mais fome ainda.
  — Trabalho cansativo, estou estressado — disse cunhado, entre uma dentada e outra no churrasquinho de domingo.
  Depois do almoço, se estirava religiosamente na rede, se tornava paisagem do jardim esverdeado. Dormia e dormia.
  Assim cunhado foi juntando muito dinheiro. Bom salário, economizando os fins de semana na casa do irmão e arranjara namorada rica que pagava tudo, mas feinha a pobre.
   — Mano, comprei casa lá no interior — disse cunhado — Vou demorar para vir em outro fim de semana.
   — Que pena... — eu disse aliviada.
  E a casa era muito boa, pequena, mas uma gracinha. Bem decorada, caprichada, geladeira cheia e TV bem grande.
   Meu marido e eu fomos visitá-lo. Ficamos todo fim de semana. Vingativa, abri toda hora a geladeira, me servi de tudo, exigi marca de refri e que fosse geladinho com pedaço de limão, e por aí afora. Chegada a noite, iríamos dormir na sala. Cunhado preparou confortável sofá-cama com lençóis cor lilás e cherinho de amaciante.
   — Boa noite! — disse cunhado, apagando a luz da sala.
   Minutos depois.
   — Meu amor — disse a meu marido.
   — Que houve mulher?
   — Que sofá booommmm!
   Dormi muito bem naquela noite.




Sobre a autora:

     O AVM tem a orgulhosa alegria te trazer para nossa coluna uma super escritora, a publicitária Ana Cecília Romeu. Ana é dona e escritora do artigo 'Humor em Conto' na página que leva o seu nome na internet. Agora ela também estará aqui e apresentará a coluna Série"O" que vai apresentar situações engraçadas e iláriantes do cotidiano. Você claro é nosso convidado a conferir sempre aos sábados e apreciar os divertidos textos da nossa querida Ana Cecília.

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