11.6.11

Humor em Série apresenta:

O Casamento                                                   por  Ana Cecília Romeu

   Meu primo Adair chama atenção de mulheres da pré-adolescência à terceira idade na pequena cidade de Vaideus, onde mora. Bem, na verdade, no raio de uns cem quilômetros, o cara é comentado. Até nas longas horas de chá de sábados à tarde do clube de mães da paróquia de Saltão, bem longe dali, na outra margem do rio mais uns cinqüenta quilômetros. Loiro, olhos grandes e verdes, musculoso, alto, roupas da moda, mas um pequeno defeito, bem pequeninho, quase imperceptível: de seis coisas que Adair fala, dez tem erros de português. Adair fala muito errado, pois pensa tudo errado. Primário incompleto e preguiça para leitura, mas isso não interessava a mulher nenhuma, até porque sempre com carro do ano, motor rápido, CD com MP3, Adair desde cedo vendia muito bem. Ainda menor de idade, pegou representada de calçados, sorte sua, a primeira cliente, viúva do seu Gaspar, avistou de longe as capacidades do meu primo, investiu no futuro do moço, um Corcel 86, com toca-fitas novinho. Dizem que ainda deu um terreno. A mãe dele, minha tia mais esperta, construi mansão com piscina de raia e churrasqueira para trinta espetos. O bairro cresceu, asfalto na rua, o centro ficou próximo, e hoje a propriedade vale umas três vezes mais.

   Adair foi se dando bem, namorando muito, a descabelada, a cabeluda, a chanel, a punk. Quatro mulheres por vez, e todas sabiam do grande feito do moço, mas numa estranha negociação, nada faziam, contanto que ele cumprisse suas obrigações. E Adair prometia e cumpria!

   Na principal escola do município, começou com a estagiária da educação infantil, a Eliane, pobrezinha, inexperiente que dói, hoje dizem que já está no quinto namorado, e o cidadão é casado. Depois Adair se aproximou das professorinhas, algumas, muitas e acabou seu plano de carreira no topo da hieraquia, hoje está com a diretora.

   Não faço idéia como aconteceu, o que essa tal de diretora fez, mas recebi um convite de casamento. Não é que a tal conseguiu pegar o Adair de jeito. Nem acreditei, demorou uns minutos, fiquei roxa e tudo, mas meu primo vai casar com a diretora. Pasmem! É verdade!

   Pensei se o Adair não está meio em crise, sei lá, agora com quarenta anos, mas o cara ainda parece aquela costela assada 24 horas, tenro, gostoso, mas foi fisgado o sujeito.

   Deixa eu ler de novo, não..., vou colocar os óculos... É ele sim! É o nome dele. A noiva é Jussara. Nossa! Será que a Ju sara a fama de namorador do meu primo? O que essa mulher fez, sei lá? Não a conheço, mas já soube que nem bonita é, pelo menos foi o que minha cunhada disse, não sei se dá para confiar, muita crítica com todos. Mas também falou que a Ju é magra e elegante, vai ver que é isso.

   O casamento é em outubro, vou aguardar ansiosa, tirar fotos e tudo: grande acontecimento da região de Passo Largo. Será que o cara não vai fugir da cerimônia? Tenho que chegar cedo. Tudo muito tradicional e despendioso: igreja e festa com coquetel de entrada para mais de duzentos convidados, fora os penetras. Isso é muito bom!

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