25.5.13

Escritor(a) da semana

Adélia é a Escritora da Semana aqui no Categóricos.
Durante toda semana vamos contar  sobre a vida e obras de Adélia Prado.



Agora: uma bateria de poesias da autora!


Bilhete Em Papel Rosa
Adélia Prado

Quantas loucuras fiz por teu amor, Antônio. 
Vê estas olheiras dramáticas, 
este poema roubado: 
"o cinamomo floresce 
em frente do teu postigo. 
Cada flor murcha que desce, 
morro de sonhar contigo.
" Ó bardo, eu estou tão fraca 
e teu cabelo é tão negro, 
eu vivo tão perturbada, 
pensando com tanta força 
meu pensamento de amor, 
que já nem sinto mais fome, 
o sono fugiu de mim. Me dão mingaus, 
caldos quentes, me dão prudentes conselhos, 
eu quero é a ponta sedosa do teu bigode atrevido, 
a tua boca de brasa, Antônio, as nossas vidas 
ligadas 
Antônio lindo, meu bem, 
ó meu amor adorado, 
Antônio, Antônio. 
Para sempre tua.



Pranto Para Comover Jonathan
Adélia Prado

Os diamantes são indestrutíveis?
Mais é meu amor.
O mar é imenso? 
Meu amor é maior 
mais belo sem ornamentos 
do que um campo de flores. 
Mais triste do que a morte, 
mais desesperançado 
do que a onda batendo no rochedo 
mais tenaz que o rochedo. 
Ama e nem sabe mais o que ama.


Enredo para um tema
Adélia Prado

Ele me amava, mas não tinha dote, 
só os cabelos pretíssimos e um beleza 
de príncipe de estórias encantadas. 
Não tem importância, falou a meu pai, 
se é só por isto, espere. 
Foi-se com uma bandeira 
e ajuntou ouro pra me comprar três vezes. 
Na volta me achou casada com D. Cristóvão. 
Estimo que sejam felizes, disse. 
O melhor do amor é sua memória, disse meu pai. 
Demoraste tanto, que...disse D. Cristóvão. 
Só eu não disse nada, 
nem antes, nem depois.


A invenção de um modo
Adélia Prado

Entre paciência e fama quero as duas, 
pra envelhecer vergada de motivos. 
Imito o andar das velhas de cadeiras duras 
e se me surpreendem, explico cheia de verdade: 
tô ensaiando. Ninguém acredita 
e eu ganho uma hora de juventude. 
Quis fazer uma saia longa pra ficar em casa, 
a menina disse: "Ora, isso é pras mulheres de São 
Paulo" 
Fico entre montanhas, 
entre guarda e vã, 
entre branco e branco, 
lentes pra proteger de reverberações. 
Explicação é para o corpo do morto, 
de sua alma eu sei. 
Estátua na Igreja e Praça 
quero extremada as duas. 
Por isso é que eu prevarico e me apanham 
chorando, 
vendo televisão, 
ou tirando sorte com quem vou casar. 
Porque que tudo que invento já foi dito 
nos dois livros que eu li: 
as escrituras de Deus, 
as escrituras de João. 
Tudo é Bíblias. Tudo é Grande Sertão.


Poema Começado no Fim
Adélia Prado
Um corpo quer outro corpo. 
Uma alma quer outra alma e seu corpo. 
Este excesso de realidade me confunde. 
Jonathan falando: 
parece que estou num filme 
Se eu lhe dissesse você é estúpido 
ele diria sou mesmo. 
Se ele dissesse vamos comigo ao inferno passear 
eu iria.


A Serenata
Adélia Prado

Uma noite de lua pálida e gerânios 
ele viria com boca e mão incríveis 
tocar flauta no jardim. 
Estou no começo do meu desespero 
e só vejo dois caminhos: 
ou viro doida ou santa. 
Eu que rejeito e exprobo 
o que não for natural como sangue e veias 
descubro que estou chorando todo dia, 
os cabelos entristecidos, 
a pele assaltada de indecisão. 
Quando ele vier, porque é certo que vem, 
de que modo vou chegar ao balcão sem 
juventude? 
A lua, os gerânios e ele serão os mesmos 
- só a mulher entre as coisas envelhece. 
De que modo vou abrir a janela, se não for doida? 
Como a fecharei, se não for santa?









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