31.12.13

Contos

Olhos da Cara
 Escrito por Dedé Vieira

Olá! Me chamo Ana Beatriz, tenho 12 anos e moro em Cotia, interior de São Paulo. Resolvi escrever esta carta me culpando por tudo, caso alguma coisa saia errado.



Aos meus 9 anos tudo que eu sonhava era ter uma casinha de boneca, mas não era uma casinha qualquer, era A casinha de boneca. Papai conversou comigo e me fez ver que ele não tinha condições de comprar, era muito caro e ele estava com muitas dívidas a pagar. Mamãe também conversou comigo e falou um negocio de moda passageira, que logo aquele meu desejo iria passar. Mas não passou. Durou 3 longos anos e nem sinal de um dia eu ter aquela casinha.

Eu já sabia mexer muito bem no computador igual gente grande. Comecei a procurar um jeito de conseguir o dinheiro necessário para comprar a Casinha. Tudo parecia tão difícil já que eu não tenho idade para trabalhar. Com o computador ligado, uma dessas janelinhas de vendas surgiu na tela, parecia que tudo foi combinado, na janela tinha uma frase que dizia: Ganhe muito dinheiro fácil e rápido!

Tentada, eu cliquei e descobri que era um site de compra e venda de órgãos. Confesso que me veio muitas ideias na mente e quando me dei conta estava fazendo o cadastro no site. A partir daí tudo foi dando muito certo, recebi a resposta positiva do site, consegui enganar meus pais com a assinatura e irem comigo aos correios entregar uma carta ao “Papai Noel” (Se é que vocês entenderam), enganei primos e tios para me levarem pra “Passear”. Não sei que palavra os adultos usam para falar disso, mas qualquer que seja, sei que não é uma palavra boa.

Tudo que eu queria saber era da Casinha de bonecas. Um Casinha que mais parecia uma casa de verdade, enorme. Pra colocar mais “pilha” em mim, vários filmes, novelas e comerciais de televisão falavam da bendita. Não pensava em mais nada só em ter a casinha e que meu plano desse certo.

Era uma noite de Domingo, estavam todos na sala assistindo TV, minha mãe e uns parentes que moravam em São Paulo. Estávamos todos felizes, porém, em meio a tantos sorrisos, um baralho estranho que vinha de fora estragou aquela noite, homens discutiam com meu pai no portão, que os enfrentou até eles mostrarem as armas, entraram na casa, pediu pra todo mundo fazer silêncio e perguntaram:

Cadê a Ana Beatriz?  (Falando diversos palavrões)

Estava muito assustada e chorando sem parar, mas me apresentei a eles. Me puxaram com muita violência e me levaram até o carro deles, o carro era uma van preta ( não conheço nome de carros). Lá dentro, me amarraram e taparam meus olhos. Depois disso escutei muitos tiros, muitos mesmos que até doeram nos ouvidos. Entraram dentro da Vam e saíram como diria meu priminho “a milhão”.

Num lugar muito estranho me soltaram e uma mulher veio falar comigo:
-Você é a Ana Beatriz?

Sou sim. Com muito choro respondi a ela.

Tentando me acalmar, dizia:
-Não chora, tudo vai ficar bem, a gente sabe quem é você. Tudo vai ficar bem.

Continuando ela me perguntou:
-Vem cá! Pra que uma mocinha tão linda como você queria tanto dinheiro, afinal?

Meio que parando o meu choro, agora só com soluços respondi:
- Pra comprar uma Casinha de Bonecas, já que meu pai não tem condições de comprar.

A Mulher:
- E você leu direitinho o site?

Eu:
Sim!

A Mulher:
- Então, nós podemos te dar o dinheiro, só que vamos precisar tirar um dos seus rins. Descobrimos que você tem dois desses rins e precisamos de um deles, pra salvar vidas.

Eu:
Não quero tirar meu rim. Eu não quero mais o dinheiro. Pode ficar com vocês, só me leva de volta pra casa, por favor. (Em choro novamente foi o que respondi)

A Mulher:
Não podemos te levar de volta. A gente fez um trato, lembra? Tem a assinatura do seu pai, não dá pra voltar atrás, por que se não muita gente vai ficar triste.

Eu:
Assim como eu estou triste?

A Mulher:
Sim, assim como você está triste. Mas eu tenho algo que vai te deixar muito alegre.

Eu:
Nada vai me deixar alegre. Eles mataram meus pais, eu ouvi os tiros. Me leva pra casa por favor, a vizinha cuida de mim.

A Mulher:
Calma, vem cá que eu te mostro, não precisa ter medo!

Me levando pra dentro de um galpão gigantesco, eu comecei a chorar quase gritando, quando lá no fundo eu avistei algo que me fez parar de chorar rapidamente. Era A tal sonhada casinha. Sim, estava ali, toda completinha com todos os acessórios, como era linda e enorme. Minhas lágrimas por hora eram de felicidade. Mas logo bateu a tristeza de novo.

-O que foi que eu fiz Deus. Meus pais morreram por minha causa. Tudo por minha causa.

Logo em seguida quando Ana Beatriz menos esperava, seus pais apareceram na sua frente junto com todos os seus parentes que estavam em sua casa naquele Domingo. Correndo com um largo sorriso foi abraçá-los.

Ana:
Mas como, eu ouvi os tiros?

Seu pai:
-Tudo foi uma grande lição pra você aprender que nem aquilo que a gente quer a gente pode ter. O que você fez foi muito errado, o papai ficou muito triste. Nós descobrimos tudo por que todos os sites que são utilizados no computador ficam gravados. Você esqueceu de apagar o histórico, filha. Graças a Deus!

Ana:
Então tudo foi uma grande brincadeira.

Sua mãe:
Sim, minha filha. Porém o site que você entrou era de verdade e tinha gente muito perigosa por detrás. Conseguimos alertar as autoridades locais, a policia e essas pessoas más foram presos a tempo. Mas você correu um grande perigo.

Ana:
E essas pessoas da Vam, aquela mulher, as armas, os tiros, os palavrões?

Seu Pai:
São tudo atores, amigos da sua prima Letícia, ela está numa escola de teatro e nos ajudaram a fazer essa brincadeira para te alertar sobre os riscos que poderiam ter acontecido.

Sua mãe:
É minha filha, nunca mais faça isso. A TV, as revistas, o mundo inteiro, têm muita coisa ruim e eles querem isso que nós ficamos encantado com coisas modernas, luxuosas, coisas muito caras como aquela casinha.

Ana:
Entendi, nunca mais, nunca mais farei isso, nunca mais. Aproposito, essa casinha é pra mim?

Sua mãe:
Não, seu tio que trabalha em loja, pegou a Casinha com o chefe dele emprestada pra gente fazer essa brincadeira, mas terá que devolve-lá

Ana:
Entendi, mas tudo bem. O melhor presente e a coisa mais valiosa eu já tenho que é a minha família.

Assim todos deram muitas risadas e foram terminar o domingo numa pizzaria ali perto,  felizes da vida.


Bem que a história poderia terminar assim, mas na verdade não foi. Realmente os pais e parentes de Ana foram assassinados. Três semanas depois o corpo de Ana foi encontrado numa mata próximo a Jandira, também interior de São Paulo.

A carta inacabada que ela escreveu foi escrita quando ainda estava em cativeiro e o triste fim foi que todos pagaram pela ostentação de Ana. Uma garota de 12 anos que entregou os pais a morte por causa de um brinquedo do momento.

A quadrilha, nunca foi encontrada e está por ai bem mais perto do que podemos imaginar. Afinal enquanto houver desejo, ostentação e propaganda, ainda haverá mercado para eles.


Nenhum comentário:

Postar um comentário

Se é Arte, é Categóricos!