Contos

Bem vindo a Seção
Contos

___________________________________________________________

DISTRIBUIÇÃO GRATUITA.
___________________________________________________________

Seleção de Livros! Clique e confira.






Razão e Emoção 
de Karen Beatriz


Quando somos crianças nada para nós é impossível e tudo é tão genuíno, estou me lembrando da época da escola e como tudo para nós era tão intenso, falar em intenso eu me lembro da forma como me senti quando aqueles belos par de olhos caíram sobre mim, e eu me perdi naquele segundo. Intenso foi quando nossos olhares se perderam um no outro e queimaram de desejo. Intenso é quando mudamos nosso rumo e deixamos para trás a criança que somos, intenso é quando a vida mostra que você tem que crescer e tomar decisões. E todos nós tomamos as nossas decisões...

- Esse lugar é incrível.

- Desde que eu me mudei para cá eu não saio muito, na verdade é a primeira vez que venho aqui. – Sorri fraco. E aqueles olhos expressaram “ tudo bem eu entendo, não precisa se explicar”. Era tão bom por fim ter alguém que me trouxesse conforto, alguém que me fizesse sentir-se em casa mesmo não estando em casa. Mas eu não sabia quanto tempo aquilo poderia durar. Eu perdi o contato com os nossos amigos e o medo do que eles estavam sentindo de mim me atormentava e por isso eu preferi me manter longe, talvez eu fosse covarde, mas talvez eu estivesse poupando-os.  

Mas como a vida era irônica, eu fugi da nossa antiga cidade por causa da pessoa que estava aqui, comigo. 

Como sobreviver amando alguém sabendo que o seu melhor amigo também a ama? Como eu poderia viver todos os dias tendo que esconder o meu sentimento, e ter que fugir dela, porque no fundo eu sabia o que aqueles olhos diziam, e não era a mesma coisa que diziam para ele. 

Então eu tentei fugir de tudo isso, tentei ficar longe deles para que suas vidas fossem o que sempre sonharam e tentei fugir para que eu pudesse também ter uma vida normal, mas como fugir do que está dentro de você? 

______________________________________________
Capítulo 2


Capítulo 3 

(...) continuação

Para alguns abrir mão de quem amamos não parece justo, já outros acham que se você ama e não consegue fazer feliz, abrir mão para que a pessoa encontre a felicidade é uma prova de amor, só que a única coisa que eu sei é que tudo isso é difícil. Amar alguém e ter medo é mais difícil do que eu pensei, parece que estou há horas deitado nesse chão frio encarando o teto e pensando no que eu teria que ter feito, como tudo chegou a esse exato momento. 

Ela foi pedida em casamento pelo meu melhor amigo e está aqui do meu lado em outra cidade, deitado sobre o tapete da sala encarando o mesmo teto que eu, sinto como se as partículas estivessem paradas no ar, como se respirar fosse a coisa mais difícil de fazer no momento, esperando todas as palavras do mundo fazerem sentido, e então ela quebra o silêncio que há em nós.

- Eu ainda não dei uma resposta a ele. – A voz dela saiu como um sussurro. Estamos ainda encarando o teto no escuro, estamos ainda aqui, e eu estou sentindo tudo quando na verdade não queria sentir nada, porque eu não sei o que fazer com tantas coisas envolvidas que eu nem sequer sabia com exatidão.

- Eu sei que você o ama. – Digo ainda encarando o teto e ouço o suspiro pesado que ela dá.

- Você nunca está lá... Quantas vezes eu precisei de você e você não estava lá, noites sem dormir, problemas, conselhos, abraços, e você não estava lá. Você nem se quer sabe das decisões difíceis que eu tive que tomar, o quanto minha vida está de ponta cabeça, eu tive que aguentar sozinha todos ao nosso redor dizendo o quão incrível e perfeito ele é para mim, e realmente ele tem sido, ele sempre está lá. – Ela se vira para mim e eu vejo que algumas lágrimas começaram a escorrer pelo rosto dela.

- Mas? – Eu a encaro e não consigo sequer disfarçar a dor que sinto, porque eu realmente sinto uma dor que transborda por meus olhos também.

- Mas ele não é você. – Ela fala fraco. E eu sinto um choro preso em minha garganta. – Estou cansada de esperar, cansada de tanta dor. – Tento secar algumas de suas lágrimas.

Como eu poderia fazê-la feliz? Apenas causo dor a ela, a mim, causo dor a nós, tudo o que somos se remete a isso, como eu queria poder fingir que não tenho medo do que está por vir ou fingir que não tenho medo que não reste mais nada. O que eu poderia oferecer a ela? Ela tinha razão eu nunca estava lá, embora eu sempre quisesse estar. Essa verdade rasgou meu peito, mas eu a amo, apesar dos meus erros, dos nossos erros, das pessoas ao nosso redor, apesar dos meus medos e das nossas feridas, eu a amo e não sei o que fazer com esse amor, com todo esse sentimento que tem ardido dentro de mim, o que fazer com esse choro preso e escondido, que tem tudo ficado escondido por muito tempo. Eu sempre soube que quando eu não estava lá ela poderia amá-lo, e se ela podia fazer isso agora, talvez pudesse fazer para sempre.

Nos encaramos em frações de segundos, e eu cortei o pequeno espaço que tinha entre nós, sem as nossas bocas se tocarem compartilhávamos do mesmo suspiro pesado, uma emergência dentro de mim e eu a abracei como se fosse abraçá-la pela última vez, eu queria apenas uma memória para que eu pudesse me lembrar do nosso amor. Nos beijamos, e ela sabia o que isso significava.


______________________________________________

Capítulo 4

Senti o gosto dela, o gosto de suas lágrimas em meu paladar e eu a segurava em meus braços, e sentia o quanto ela se agarrava a mim também. Era sempre assim partida sem querer ir. 

Enquanto eu a amava, imaginava como teria sido a nossa vida, se eu fosse ele, e que eu estou o traindo, mas não há ninguém que me conhece tão bem quanto ela, e eu sei agora mais do que nunca que eu a amo e quero que ela seja feliz, porque ela merece que alguém esteja lá por ela, que não tenha medos e encare todo o mundo, pensei agora que talvez se tivéssemos uma outra vida, ela seria a minha garota e eu a faria ficar. Isso agora importava, porque se eu não conseguir amar de novo? 

Ela me beijou mais uma vez e não havia emergência em nós, era nossa lição de amor. E uma lágrima caiu do meu olhar e delicadamente ela secou, e eu sei que no nosso silêncio ela mais uma vez me compreendeu, não falamos mais nada, porque não haviam mais palavras.

Alguns meses se passaram desde que ela foi embora, e hoje eu recebi uma carta dela, ela havia deixado de responder a última carta que enviei a ela, lembrar dessa noite e ver essa carta com seu nome escrito pela letra dela me fez levar horas para criar coragem e abrir. Meus olhos se encontraram com o dela pela primeira vez, minhas mãos seguraram a dela pela primeira vez, todas as horas que gastamos conversando e rindo de coisas que só nós entendíamos, todas as vezes que ela passava correndo por mim, todas as vezes que meus olhos buscavam por ela encontrava Sam a olhando e indo até ela, até a minha garota. Quando ela naquela noite de inverno me apresentou blues, quando todas as vezes eu sentia um frio na barriga quando ela me abraçava, quando todas as vezes eu fui seu ombro amigo, quando Sam se declarou pra ela, quando eu engoli em seco tudo isso, quando nos beijamos pela primeira vez, quando ela sussurrou na noite de formatura que me amava, quando eu a convidei para o baile e ela já tinha um par, quando eu chorei por ela, quando Sam passou horas me dizendo o quanto a amava e estava feliz por tê-la a conhecido, quando eu não deixei que ela fosse aquela que foi embora, quando pensamos em nomes para nossos filhos, quando eu estava a esperando do outro lado do altar e a vi caminhando ao meu encontro com um sorriso único, e aquele olhar que eu vi pela primeira vez. 

Tudo isso passou pela minha mente em questões de segundos, porque as vezes quando um sentimento é especial, forte e incomum, nosso coração avisa que jamais vamos encontrar algo semelhante ao longo de nossas vidas, mesmo que os ventos sopram ao contrário, mesmo que as decisões sejam tomadas. E vendo onde estou agora e segurando esse envelope em minhas mãos eu entendi que a gente vai perdendo por medo de perder, eu não sabia o que ela queria e o que ela precisava, eu apenas fiz, porque queria que ela fosse livre e feliz, e quando ela saiu daqui disposta a voltar para nossa antiga cidade eu me deu todo o consolo era como se ela realmente entendesse o porquê eu estava fazendo aquilo, e eu a amava mais ainda por ser a única a me entender e acreditar em nós apesar de não mais existir, mas eu não sabia como ela realmente se sentia até ler as últimas palavras escritas a mão naquele cartão com letras bem desenhadas e elegante. 


Eu aceitei... aceitei porque de alguma forma eu amo ele. Mas por favor não venha.

Ele insistiu que eu enviasse o convite. Mas não venha, porque jamais conseguiria fazer isso se você estivesse aqui.

______________________________________________

Capítulo 5 


Mais uma vez ela sonhou com ele...

- Te peguei – ele disse sorrindo – E nunca mais vou te soltar. – Ele brincou, com seus braços ao redor dela.
Foram semanas desgastantes, porque era ele quem estava constantemente em seus sonhos ultimamente e quando ela acordava era Sam que estava deitado ao seu lado, como sempre esteve.

Injusto são esses sonhos!

E mais uma vez ela acordou assustada faltando-lhe o oxigênio e era tão real que chegava a ser agonizante sonhar com alguém que nunca vêm.

“ Não foi preciso muito esforço, não foi preciso declarar tudo para todos ao redor, foi preciso apenas que nossos olhares se encontrassem... e foram muitas as vezes. Foi preciso apenas ter seus olhos sobre mim, e eu entender o que aquilo significava. Você de alguma maneira sempre soube me ler, compreender e saber que a agitação que acontecia dentro de você, acontecia em mim também. Negue pra si mesmo e eu voltarei para lembrá-la ... “

Em silêncio ela caminhou até a cozinha e serviu-se de um copo d’agua e as imagens do sonho estavam repassando por sua cabeça juntamente com as palavras daquela carta que havia recebido há duas semanas. Sentiu lágrimas subirem até seus olhos, mas não chorou... não deveria. Era um sentimento que só fazia desejar afoga-lo e esquecer ao menos aquela noite a confusão que voltara a existir em si.
Não era justo... não era justo depois de dois anos isso voltar a acontecer.
Quanto tempo leva para a cura?

“Eu deixei muitas pessoas passarem e realmente eu deixei elas irem, algumas nem se quer eu deixei chegar e também passaram. Mas eu não quero que você vá, eu nunca consegui deixá-la ir de verdade. “

E mais uma vez ela se pegou relendo a carta...

“Foram tantas as noites que eu estive em minha varanda e imaginando o que você poderia estar fazendo, o quão feliz você estava por ter o seu sofá novo, e ele era amarelo...é você tinha seu primeiro sofá... quantas vezes eu relembrei a noite que me senti leve ao seu lado e que parecia que nada mais iria me fazer se sentir assim, não adiantava quantas vezes eu tentei justificar que o melhor pra você era estar aqui e não lá comigo, isso nunca me convenceu de esquecê-la. Eu disse para você ir e aceitar se casar com ele quando o meu coração transbordava de dor e gritava para eu pedir para você ficar comigo. ”

O que ela não conseguia entender era o porquê depois desse tempo ainda estar chorando por aquelas palavras, que eram apenas palavras... talvez porque havia algo nela que ainda estava quebrado, algo que ainda precisasse de respostas.

“Como confessar o que não teve coragem de confessar anos atrás?
O que fazer quando você deixa escapar a única pessoa que você sabe amar?
Eu confessei pra mim mesmo todos os dias nesses últimos dois anos, eu te procurava em cada toque, te procurava em cada fala, mania, risada.
E eu me perguntava porque eu fazia isso?
Porque eu ainda fazia? “

Porque ainda faziam? Ela se perguntou e sentiu uma dor crescer dentro de ti e era realmente injusto sentir isso, porque há pequenos metros de onde estava, Sam estava dormindo e era injusto fazer isso com ele, logo ele que sempre quis minha felicidade. Pensou ela.

“Eu odeio o fato de ter que ficar imaginando o que nós poderíamos ter sido quando na verdade eu quero que seja, e odeio o fato de doer tanto não poder te ter... Eu nunca te esqueci, nem por um minuto, confesso que eu tentei te achar em outras pessoas, eu queria poder me apaixonar e entregar meu coração para quem sabe poder aliviar a dor que eu sentia, mas eu não podia entregar algo que já não era meu, meu coração me deixou no mesmo momento em que você foi embora.”

E a cada palavra era como uma fisgada em seu coração, porque as vezes parece que nem tudo tem uma solução, o tempo não volta ele só segue em frente e somos obrigados a seguir em frente, e o problema é que ela sentia que já não era mais aquela garota que ele deixou para trás, e já não sabia mais se acreditava nessas palavras. Mas se perguntou: porque ainda dói?

“Eu vi ele se apaixonar por você, vi ele se apaixonar verdadeiramente por alguém pela primeira vez e todas as vezes que nossos olhares se cruzaram era o olhar dele quem estava a sua procura. E eu iria lutar, mas confesso que não sabia como fazer isso, ele sempre foi melhor que eu em saber como se apaixonar, e talvez ele fosse o melhor para você. Mas todas as vezes que estávamos juntos eu podia enxergar também um futuro no qual você estava na minha vida. Talvez eu devesse ter dito, e eu quase abri a boca para dizer, quase...
Foram inúmeras vezes e eu quase disse..., mas você se apegou a ele também, e perdi a luta, pois eu já não tinha mais forças, como confessar para você mesmo que seu melhor amigo ama a garota que você também ama? Eu não poderia, e eu te peço perdão por não ter dito nada antes, e por ter feito as escolhas por você, eu aceitei a minha sentença e chorei todos os dias por ela. Quando você me enviou o convite do casamento eu não tive coragem de abri-lo, eu não tive coragem de ler sua carta, eu demorei um longo tempo para finalmente faze-lo. E assim como você, quando eu paro para pensar no futuro não existe um em que você não esteja. ”

Algo dentro dela tremia por imaginar um futuro, relembrar um passado e pensar no presente.

“ Eu não quero que pense que isso seja uma disputa e que o prêmio é o seu coração, eu só quero que saiba que eu me perdi no caminho para casa, eu soltei sua mão no meio do caminho e foi horrível ter a sensação de estar sozinho nesse universo imenso. E foi tão rápido... foi rápido a forma em que nos perdemos, foi rápido a forma que roubamos nossos corações e nem o tempo foi capaz de prever isso, talvez tudo aconteceu assim tão rápido porque o nosso amor seja atemporal, ele não está sujeito ao tempo, por isso eu te digo, que ainda espero por você.
O meu desejo é que minha pessoa especial também possa entender que eu tenho uma boa razão para não medir o tempo.
Eu estava a cada dia caindo, mas agora estou voltando... estou voltando para casa. 

E eu preciso te dar a chance de fazer o que quiser com a chave, mas eu preciso saber, você vai estar lá?"





Capítulo 6 (final)

Vai chegar um dia em que tudo na sua vida vai mudar e você terá que escolher entre a razão e emoção, não há roteiros e é como se o tempo parasse, como se aquele momento virasse o infinito e você torcesse que no final das contas tudo acabasse bem como nos filmes. 

Ela estava parada na minha frente e eu apenas encarava a parede vermelha de seu quarto.
 
- Porque você voltou? Porque mandou aquela maldita carta? – Ela dizia irritada.
- Você precisava
- Eu não precisava... eu não precisava que você voltasse, levou um tempo, mas eu aprendi a ficar bem... e agora você volta e quer bagunçar toda a minha vida. – Ela dizia irritada.

- Você está feliz?

- O que você entende de ser feliz? – Ela invadiu o meu espaço e empurrou meus ombros, e seus olhos estavam de uma forma que eu nunca vi antes. – Você desapareceu por dois anos, você deu notícias para todos nossos amigos, e eu nem se quer havia recebido uma carta, uma pequena notícia. – Ela estava irritada, e precisava desabafar o que estava preso. – Eu não sou eles, eu não sinto sua falta e você não deveria ter voltado.

- Eu fui porque eu sempre achei que você merecia o melhor. – Tentei segurar suas mãos, mas ela desvencilhou.

- E porque você acha que decidir por mim era o melhor a fazer?

 Quantas vezes eu repassei na minha cabeça esse momento de reencontra-la, talvez não fosse justo mesmo eu voltar logo agora, talvez eu devesse ter invadido aquela igreja e não ter deixado aquele casamento acontecer, mas como eu poderia? Eu passei todo esse tempo achando que fui o único errado de tudo isso, mas  Sam sabia sobre nós, e apesar de eu abrir mão para que ela fosse feliz, ela também fez uma escolha. Mas eu voltei porque eu preciso saber... se todos fizemos sábias escolhas e darmos a chance da certeza.

- Parecia ser o certo, você fazia ele feliz, e quando estavam juntos pareciam felizes e todos ao nosso redor apoiavam isso, o que eu poderia ter feito? – Meus olhos encheram de lágrimas ao ver o quão magoada ela ainda estava com tudo o que eu fiz. – Eu deveria ter lutado por você, mas eu lutei todos os dias para que você fosse realmente feliz, eu estava dentro de um buraco e o que eu poderia oferecer?

Busquei uma resposta, mas ela escolheu ficar quieta e caminhou até a janela de seu quarto, novamente tentei me aproximar dela. As vezes o medo de perder nos faz ter escolhas erradas e acabamos perdendo, eu a perdi uma vez quando deveria ter lutado contra os meus medos, lutado contra o que iriam dizer, mas eu não fiz e agora estou vivendo nos velhos momentos. Mas nem sempre tudo é perder, no final das contas a gente aprende que a vida é feito de momentos e devemos fazer deles os melhores, que alguns momentos podem ser infinitos e lentos, como se tudo parasse, e que é melhor dizer demais do que nunca dizer o que era preciso dizer.

- Você o escolheu por uma razão...  E eu queria ter voltado, mas você estava feliz demais comprando um sofá... eu queria ter voltado, mas desde aquele dia você também não voltou.

- Você me mandou embora, me mandou embora e disse para eu aceitar me casar com ele. E quando eu cheguei aqui ele era meu porto seguro, ele juntou os meus pedaços, era ele quem estava aqui para me segurar, ele sempre esteve. – Ela encarava a paisagem através da janela, e então eu me aproximei novamente, toquei em seus braços e num sussurro perguntei novamente:
- Mas você está feliz? Eu só quero saber isso, eu só quero te dar a oportunidade de você fazer a escolha e me dizer se está feliz.... Eu te devo isso.

- Ele sempre se esforçou para me fazer feliz, ele me salvou quando eu estava em pedaços, e é injusto tudo isso, é injusto o que estou fazendo com ele... – Ela deixou escapar algumas lágrimas. – É injusto porque eu deveria ter me salvado, é injusto eu culpar você quando eu também fiz as minhas escolhas. – Comecei a acariciar seus braços, e ela ainda encarava o mundo lá fora através da janela. – Talvez o meu erro foi ter voltado e aceitado aquele pedido, talvez meu erro foi ter ido até você na esperança de que você me pedisse para ficar, mas eu conseguia entender o que você estava fazendo... Eu fui covarde e egoísta. – Então ela começou a chorar, e num impulso e a abracei. Abraça-la era tudo o que eu mais queria, era o que faltou no último adeus, era o que faltou nas noites tristes, era o que faltou nos dias alegres.

- Nós erramos, e não precisamos desistir. –Ela se virou e olhou para mim.

- Eu senti falta do meu melhor amigo, eu sentia falta de quem eu realmente sou, eu senti falta de tanta coisa... – Apenas sequei seu rosto, e naquele momento as palavras não saíram, mas eu queria dizer o quanto eu senti a falta dela, e que tem sido dias escuros desde que nos afastamos, que algumas coisas já não fazem mais sentido, que algumas músicas e filmes já não são mais a mesma coisa sem ela por perto, que apesar de caminhos diferentes eu sempre estive esperando para reencontrá-la.
Mas eu não precisei dizer isso naquele momento, ela sabia... e a confirmação veio quando ela quebrou todas as barreiras e me abraçou.

- Eu não vou passar por cima dele, nunca faria isso. Eu só quero te dar a oportunidade de decidir, eu só quero o seu perdão... eu só quero... – Era difícil dizer o que eu queria dizer há anos, e eu não poderia decidir por ela, eu vou lutar novamente, mas dessa vez será diferente. – Eu só quero que você escolha como quer ser feliz, porque eu vou amar cada escolha sua, eu vou amar o seu lado sombrio, eu vou continuar amando minha melhor amiga, porque só há um lugar que eu conheço. –Eu podia sentir a sua respiração, e aquele abraçou foi um daqueles momentos duram um infinito, como se tudo tivesse parado, como se os nossos erros foram apagados, como se tivéssemos voltado no tempo e todos aqueles danos não tivessem existido, porque não existe tempo quando você tem em seus braços aquela pessoa que você ama, e então ela sussurrou em meu ouvido: – Você vai ficar? 

Ás vezes no meio do percurso nos damos conta que estamos relutantes demais e que ás vezes no outro caminho você pode encontrar flores, mas só irá saber se se arriscar, e então você encontra uma casa confortável e é como se ela estivesse sempre a sua espera, você entra porque está cansado de andar e vê que tudo lá dentro é belo e parece que é ali o lugar que você deve estar. Você até fica por um tempo e então acontece algo dentro de você que te faz entender os porquês, você olha novamente para aquela casa que parecia ser tudo o que você precisava, mas você se dá conta de que nada ali foi construído ou organizado por você, você simplesmente entrou porque a porta estava aberta, mas na verdade ali nunca foi a sua morada. E agora ela entendia isso....
Ela entendia que Sam nunca foi o seu verdadeiro lar!



FIM




_________________________________________________________________________
anjos 
escrito por Dedé Vieira 

capítulo 1 - ele, quem?



Essa poderia ser uma biografia exata da minha vida, mas como nem as ondas do mar tem total precisão sobre os ventos, o que dirá eu? Ah, eu sou apenas uma mulher que vaga pelo centro velho de Recife em busca de uma única resposta. 


A vida caminha devagar nessa manhã de domingo, levo meus filhos a praia, coitados, havia prometido a mais de dois meses que iríamos. Um dia bom, vento agradável e gostoso 

- Vem filha, me dê a mão para atravessar! 

O mundo nesse exato momento começou a andar lentamente, o sinal estava verde para nós, eu juro que estava. Um motorista desgovernado vinha em nossa direção – e o mundo andando lentamente – não havia sinais que ele iria parar, foi então que numa exata fração de segundo puxei meus filhos de volta. Caímos na calçada enquanto o carro tirou um fino de nós. Ufa! Estamos bem, só alguns arranhões, mas estamos bem. 

Só não consegui entender por que o mundo ainda estava andando lentamente. Vi pessoas que continuavam a correr e quando foquei meu olhar para a esquerda, um rapaz estava estirado no chão todo ensanguentado e todos a sua volta desesperados – e o mundo andando lentamente – a minha única reação naquele momento foi abraçar meus filhos, mas um abraço intenso e longo. Quando estávamos ali naquela melancolia, um homem veio me acudir: 

- Maria Eduarda! Vocês estão bem? 

Eu lentamente virei meu rosto para ver quem era esse moço e simplesmente não consegui enxergar seu rosto, franzi os olhos e uma luz ofuscava eu tentar enxergar e foi aí que desmaiei, sim, eu apaguei. 

Em seguida, acordei em uma sala de hospital, estava deitada e minha mãe sentada esperando eu acordar. Abri os olhos lentamente – ah, o mundo voltou a andar no ritmo normal nessa hora – minha mãe se levantou e veio ao meu lado 

- Filha, que bom que você acordou! 

- O que aconteceu mainha? 

- Não vamos falar disso agora, você precisa se recuperar bem – e beijou minha cabeça. 

Eu só havia desmaiado por algumas horas, mas pareceu uma grande eternidade. Bom, passadas semanas, aquele trauma estava diminuindo, meus filhos estavam bem e continuavam espoletas, mas eu ainda queria saber quem era aquele homem que não consegui enxergar o rosto. Foi aí que todos os dias depois do meu expediente do trabalho ia ao marco zero no centro antigo de Recife pra ver se encontrava aquele homem. Tudo bem, eu sei que você deve estar pensando, se eu não vi o rosto daquele homem, como reconheceria ele na rua? 

Mesmo assim, eu de teimosa fui todos os dias lá no marco zero, algo me motivava a estar ali, algo que eu não sabia o que era, mas sabia que precisava estar ali. Minha família achou essa história estranha, até estavam achando que eu tinha ficado doida. 

- Duda, minha filha, não entendo essas tuas idas ao marco zero? 

- Mainha, eu preciso achar este homem! 

- Mas pra quê? Que homem é esse? 

- O homem que me levou para o hospital quando desmaiei 

- Mas Duda, quem te levou para o hospital foi eu! 

...continua no capítulo 2